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Ideb: por dentro dos resultados

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“O acesso à escola não representa mais um desafio para a educação brasileira. Hoje, temos outro desafio, maior e mais complexo a ser enfrentado, que é o de promover uma educação de qualidade para todas as crianças e jovens, a fim de que eles aprendam no período em que ficam na escola.”

Lina Kátia Mesquita de Oliveira

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou, no dia 5 de setembro, os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013.  Esse indicador foi criado para avaliar, bienalmente, o desempenho dos estudantes, nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, na Prova Brasil, e o fluxo escolar, medido por meio das taxas de aprovação/reprovação e pela evasão dos alunos, que é acompanhado pelo censo escolar.

Foram estipuladas metas pelo Ministério da Educação (MEC) para cada uma das etapas da educação básica avaliadas na Prova Brasil. Para as séries iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano), foi estabelecida a meta nacional de 4,9, para 2013 e houve superação, com a marca de 5,2. Nessa mesma edição, o sucesso não se repetiu nas séries finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano), já que a meta prevista era 4,4 e o resultado foi 4,2, e no Ensino Médio, com meta prevista de 3,9 e a obtenção foi de 3,7.

Com base nesse contexto, a coordenadora geral do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd), Lina Kátia Mesquita de Oliveira, apontou a importância do Ideb e opinou, na entrevista a seguir, sobre como esse índice contribui para orientar políticas educacionais voltadas para a melhoria da qualidade da educação e a promoção da equidade.

Qual a importância do Ideb para a educação brasileira?

O acesso à escola não representa mais um desafio para a educação brasileira. Hoje, temos outro desafio, maior e mais complexo a ser enfrentado, que é o de promover uma educação de qualidade para todas as crianças e jovens, a fim de que eles aprendam no período em que ficam na escola. Nesse sentido, o Ideb foi criado com o objetivo de monitorar a qualidade da educação oferecida.

Em sua opinião, o que os resultados do Ideb refletem?

Há cerca de cinco anos, o país se movimentou para promover a inclusão de estratégias pedagógicas para que as crianças fossem alfabetizadas na idade certa, ou seja, nas séries iniciais. Isso reflete na melhoria dos resultados dos anos iniciais, já que somente dois estados não atingiram a meta estabelecida (Acre e Roraima).

Um dos pontos mais importantes foi o movimento dos estados que fazem avaliação nas séries iniciais, inclusive do ciclo de alfabetização, como é o caso do Ceará (Spaece Alfa), Espírito Santo (Paebes Alfa) e Minas Gerais (Proalfa). À medida que se monitora a qualidade da educação ofertada, principalmente, no ciclo de alfabetização, há um movimento na escola para que todas as crianças sejam alfabetizadas e letradas até o final do ciclo inicial de escolaridade. A meta para que toda criança esteja, plenamente, alfabetizada aos sete ou oito anos vem se consolidando nesses estados.

Nesse sentido, o professor tem clareza sobre o que os alunos precisam aprender, logo, o que ele, professor, deve ensinar. Há uma definição clara de currículo, ajudando a escola a se organizar. Além disso, a elaboração de material instrucional e investimentos na formação do professor alfabetizador são outros fatores que vêm contribuindo para a melhoria da qualidade da educação nos anos iniciais do ensino fundamental.

A que você atribui a grande diferença existente entre os resultados das séries iniciais e das demais?

Podemos pensar em algumas possíveis razões. Eu citaria, dentre elas, a gestão escolar. Nas séries iniciais é mais simples. As escolas, geralmente, são menores, o número de professores e alunos também. O responsável consegue estabelecer normas, promover o clima escolar favorável à aprendizagem, há mais interação entre professores e melhor definição acerca do currículo a ser praticado.

A gestão nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio é mais complexa, já que o número de alunos e professores é muito maior, há, normalmente, maior rotatividade de docentes entre as turmas e até entre escolas. Isso dificulta a possibilidade dos professores se encontrarem e fazer um planejamento coletivo para cada escola. Outro ponto que eu destacaria e que tem sido um desafio, sobretudo, para o Ensino Médio, é a necessidade de uma reforma curricular, urgente. O currículo hoje está defasado. A Matemática, ensinada no Ensino Médio, é uma Matemática pesada, formal. Ela precisa ser mais funcional, mais contextualizada às características da vida atual. É a era da informação, o mundo se comunica pela informação. É preciso trabalhar mais com textos informativos e menos com os gêneros literários, por exemplo.

O que pode ser feito para melhorar os resultados?

Percebemos que os estados que adotaram programas de avaliação educacional ano a ano, ou seja, optaram por fazer uma gestão com dados para monitoramento e intervenção na educação, avançando com os alunos de baixo desempenho, tiveram melhores marcas e promoveram a melhoria da qualidade da educação pública ofertada e a equidade entre os estudantes.

O Ensino Médio do Rio de Janeiro, por exemplo, passou de 15º colocado na marca do Ideb em 2011 para o 4º lugar entre as 27 redes estaduais do país em 2013. Isso pode ser atribuído à criação de um currículo, com uma base comum, em que todos os alunos, de todas as escolas da rede, têm a oportunidade de aprender as mesmas coisas. As escolas podem, e devem avançar nesse currículo, a autonomia de cada unidade escolar é respeitada. Mas, esse mínimo, que é necessário para que a todos os alunos avancem no desenvolvimento de sua aprendizagem, em cada etapa de escolaridade, não pode ser negligenciado. Com a criação desse currículo comum, o estado avançou muito na qualidade da educação ofertada. Outro exemplo do Rio de Janeiro refere-se à avaliação bimestral (Saerjinho), realizada desde 2011, que monitora, bimestralmente, o cumprimento do currículo e as dificuldades de aprendizagem de cada aluno, permitindo que as escolas possam fazer intervenções, em curto prazo, naquelas habilidades que os alunos precisam avançar. Outras ações importantes foram implementadas pelo estado, como o investimento no uso de tecnologias, em melhores materiais instrucionais e, principalmente, em capacitações dos professores.

Minas Gerais também é outro exemplo importante de ser destacado. O estado avançou consideravelmente na qualidade da educação que oferece. Tanto que, desde 2009, vem superando as metas projetadas para os anos iniciais e finais do Ensino Fundamental. No Ideb de 2013, foi estado que teve maior desempenho nessas duas etapas da educação. Minas Gerais é pioneira no Brasil, na criação dos sistemas próprios de avaliação. Desde 2000 vem avaliando o ensino fundamental (Proeb) e, em 2006, passou a avaliar também o ciclo de alfabetização (Proalfa). Além disso, o estado tem desenvolvido uma gestão voltada para o uso dos dados da avaliação para a melhoria da qualidade da educação que oferece. O Programa de Intervenção Pedagógica (PIP) é um exemplo dessas ações, cujo objetivo é trabalhar, a partir dos resultados das avaliações, auxiliando a gestão escolar no desenvolvimento de estratégias de melhoria dos seus resultados. Todas essas ações, articuladas, têm sido fundamentais para a melhoria da qualidade da educação nesses estados, como pode ser retratado pelo último Ideb.


Criado em: 11 set 2014 | Categoria: Entrevistas |