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José Francisco Soares, membro do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais (GAME) da Faculdade de Educação da UFMG.

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O professor José Francisco Soares – membro do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais (GAME) da Faculdade de Educação da UFMG – é um dos pesquisadores convidados pelo Departamento de Estatística da UFJF para participar do evento que comemora, em 2013, o Ano Internacional da Estatística. Interessado nas contribuições da Estatística para garantir o direito à Educação, José Francisco ressalta que a questão do acesso à escola já é problema superado e o foco das discussões deve se voltar para o aprendizado.

1. Como o senhor mesmo defende, durante muito tempo o direito à Educação estava ligado ao acesso, mas hoje ele diz respeito ao aprendizado. Se é direito, é preciso monitorar se ele está sendo atendido. Como as estatísticas se inserem neste cenário?

Primeiramente, para saber se o acesso foi atendido, é preciso verificar se as crianças de fato puderam se matricular na idade correta em uma escola de educação básica. Uma vez matriculadas, é necessário checar se elas aprenderam o que era esperado. E aí temos uma quantidade enorme de fatores que são, basicamente, problemas estatísticos. Como são milhões de crianças, a pergunta “as crianças aprenderam?” só pode ser respondida mediante uma coleta de dados sistematizada. Então há o problema estatístico de definir qual vai ser a prova que as crianças irão fazer e como vamos utilizar estas informações. Feito isso, temos resultados que são muito úteis para as políticas públicas. Por exemplo, hoje temos acesso para a grande maioria das crianças e jovens de 6 a 14 anos, mas elas não estão aprendendo o que deveriam. Cerca de 25% destas crianças brasileiras estão no nível “insuficiente”. Por outro lado, existe um número muito pequeno de crianças e jovens com desempenho avançado nas escolas públicas. Precisamos diminuir o percentual de quem está embaixo e aumentar no grupo de cima. E isso só será possível se houver boas informações que subsidiem as políticas educacionais. Aqui a Estatística tem um papel importantíssimo, que é o de produzir a boa informação para que a sociedade pense formas de atender o direito à Educação.

2. Os dados estatísticos sustentam a ideia vigente de que a escola não deve penalizar a criança com a reprovação?

É importante frisar que a criança tem o direito de aprender. Quando ela não aprende, precisamos primeiro descobrir onde o ensino está falhando. Certamente parte do problema está na pedagogia que a escola está utilizando. Até muito pouco tempo atrás, a escola, refletindo uma estrutura social do país, tomava uma atitude muito cínica e confortável: ela expulsava a criança. A escola vai ter que mudar e procurar a pedagogia mais adequada às crianças que ali estão. Isto é mais fácil em alguns lugares e muito mais difícil em outros. Também por meio das estatísticas, conseguimos saber qual escola está trabalhando com alunos que trazem mais referências de casa, o que torna o trabalho educacional delas mais fácil. É nesse sentido que precisamos da informação para subsidiar a Política, e a Política para produzir o Direito.

3. Dependendo do modelo estatístico escolhido, um Estado pode mascarar um resultado, obtendo índices mais favoráveis do que os alcançados na realidade, violando desta forma o direito de aprender?

Temos uma realidade, que é “aquilo que as crianças de fato sabem”. Entretanto, quando vamos captar esta realidade para descrevê-la, podemos introduzir vieses. Não existe uma solução, a não ser a diversidade de olhares. Então vários grupos devem lançar luzes sobre a questão. Este é o esforço do qual tenho participado para dotar as faculdades de Educação com a tecnologia necessária para lançar esses diferentes olhares.  Em determinados lugares, vamos ter um quadro mais positivo do que outros olhares apontariam. As duas são realidades. Eu, particularmente, trabalho com quatro níveis: insuficiente, básico, adequado e avançado. Tem muita gente que não trabalha com esse enfoque e isso tem sim impacto sobre o resultado final. Por isso, volto a dizer, a solução será sempre essa diversidade de olhares.


Criado em: 03 jul 2013 | Categoria: Entrevistas |